Muitos estudos apontam que a biofilia – conexão dos seres humanos com a natureza – tem efeitos benéficos para a saúde física e emocional.
Mas será que ela pode atenuar a dor da perda de um ente querido ?
Em momentos de angústia e tristeza extrema é quase instintivo querer respirar ar puro e contemplar a natureza.
Esse diálogo com nossas memórias em meio à natureza ajuda algumas pessoas a elaborar o luto.
Isso porque tudo na natureza – ondas do mar, campos, árvores, flores, montanha, rios – nos faz perceber os eternos ciclos de encontros e desencontros, nascer e partir.
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O cair das folhas no outono apontam um novo ciclo. As folhas sem vida esperam o tempo, para nutrir a terra e trazer mais viva. Com esses mecanismos, a natureza nos oferece ensinamentos todos os dias.
Isso me faz lembrar de quando uma amiga se sentiu perdida ao ter que explicar ao filho, de 5 anos, que o avô havia falecido.
O menino, no entanto, a surpreendeu dizendo: “É como a chuva, né? A água do mar evapora com o calor e a gente não vê mais. Aí ela fica nas nuvens e depois cai como chuva, que vai pro rio e depois volta pro mar”. Ele aprendeu tudo isso em uma revistinha da Turma da Mônica.

No meu caso foi uma árvore que me ajudou elaborar, em parte, a morte do meu pai. Conto essa história na crônica “Romã, Amor” [fragmento abaixo].
Romã, Amor
[…]
“Olha essa árvore de romã! Logo mais vai atrair muitos passarinhos”, disse-me ‘seu Ruy’ ao me apresentar a protagonista daquele pequeno jardim do fundo da casa, no Parque São Jorge, no Tatuapé.
Semanas antes da morte do ‘seu Ruy’, aquela romãzeira passou por uma espantosa e repentina transformação.Do tronco seco e frágil começou a surgir extensos galhos em rama, de onde brotavam frutos e mais frutos.“Por que será, né?”, disse-me ele com o sorriso de canto de boca, como se soubesse a resposta, mas não me contaria.“Romã é uma fruta engraçada. Não tem muito sabor, mas é bonita e recheada de um monte de sementes, todas unidas”, ele opinou com um ar filosófico.
Nos dias seguintes à partida do ‘seu Ruy’, fiquei fitando aquela árvore maluca, que crescia de maneira desgovernada, mas que me dava um certo sopro de vida.Suas folhas estavam escandalosamente verdes, compondo uma linda pintura com as flores vermelhas em tom alaranjado. As pencas de romãs, de tão pesadas, chegavam a vergar os galhos. A fantástica profusão de folhas, flores e frutos, atraia, realmente uma algazarra de pássaros, como ele havia previsto.Observando aquele espetáculo, sorri ao lembrar do meu pai dizendo “Por que será, né?”
Me ergui na ponta dos pés e tentei alcançar uma romã “gigante” em um galho. Ao tocá-la, me veio à mente um quase palíndromo: ROMÃ, AMOR.
“Sim. Então é isto o que essa árvore maluca esta tentando me dizer”, pensei.As sementes grudadas, envolvidas pela casca espessa, era justamente o que expandia aquele que é o amor maior e perene. Um amor que não é preciso dizer para sentir e que une, pais, filhos, irmãos, avós, netos, tios, primo, de geração a geração, eternamente.“Você tinha razão. Ela é uma fruta bonita, cheia de sementes todas unidas. Muito obrigada, ‘Seu Ruy. Te amo, Pai!”


“Romã é uma fruta engraçada. Não tem muito sabor, mas é bonita e recheada de um monte de sementes, todas unidas”, ele opinou com um ar filosófico.
Uma resposta para “Natureza, luto e biofilia”.
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