Cartografia produzida em 2018, para a disciplina Cidade, Arquitetura e Uso Público do Espaço: Cartografias e Projeto, ministrada pela Prof. Dra. Maria Isabel Villac, dentro Programa de Pós Graduação (Strictu Sensu) da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie
Quem caminha pela Avenida Paulista está sujeito a inúmeros estímulos visuais, como as grandes e diversas edificações, árvores, postes de iluminação, mobiliário urbano, placas, pessoas, carros.
Esse excesso de estímulos, paradoxalmente, pode levar a não percepção de certos elementos da paisagem, ainda que eles estejam presentes em grande quantidade ou dimensão.
A razão para isso é simples: a repetição e padronização geométrica leva a uma monotonia visual que provoca certa “cegueira” no caminhante e não o estimula um olhar curioso, sensível e simbólico da paisagem urbana.
A Paisagem (des)percebida
A um grupo de pessoas que caminham assiduamente pela Avenida eu realizei a seguinte pergunta: Qual é a paisagem percebida por quem passa pela Avenida Paulista?
A ideia dessa enquete foi colher respostas espontâneas, fruto da memória e das percepções das pessoas, sobre a Avenida. Por esse motivo, não apresentei imagens da avenida ou propus percurso prévio para que eles anotassem suas percepções.
As respostas esperadas eram as mais rápidas e genuinas. E, como era de se esperar, elas foram subjetivas do que descritivas e impregnadas de simbolismo e memórias afetivas.
Alguns participantes chegaram a atribuir características como “modernidade” e “tradição” para a Avenida. E teve quem quem afirmasse que sentir parte da paisagem.
O resultado dessa enquete e da análise dos depoimentos resultou em uma ilustração de uma paisagem da Paulista muita mais marcada pelas edificações e pelo uso da avenida (figura 1) do que uma paisagem “verde” (figura 2).


Ficou claro que os elementos naturais existentes na paisagem real da Avenida foram poucos lembrados e citados pelos entrevistados. Por, exemplo, houve menção ao Parque Trianon e ao céu. E, de maneira curiosa, a natureza esteve presente nos comentários por meio de metáforas como “mar de gente”, “oásis verde”, “jardim”, “meu quintal”, “floresta” e “praia”.
Apesar da existência de vida natural na paisagem da Avenida Paulista, a percepção das edificações e estruturas construídas é majoritariamente mais forte entre os entrevistados.
Uma característica interessante da Avenida Paulista é que nela coexistem vestidos do passado e do presente e isso é evidenciado, por exemplo, na maior presença verde da Avenida: o Parque Trianon.
O paque é um resquício da Mata de Caaguaçu que existia na região. Porém, nos registros fotográficos aéreos atuais, essa massa verde de 48 mil metros quadrados aparece como um ponto diminuto na grande “selva de pedra”, que é a concentração urbana e verticalizada da região.
E essa grande presença verde, que ocupa 48 mil metros quadrados, também passou quase despercebido no olhar dos entrevistados na pesquisa. E digo “olhar”, diferenciando do “ver” fisiológico, porque é ele que identifica detalhes, delineia formas que podem ser representadas mental ou materialmente, como explica o arquiteto e professor Rafael Perrone: “Se no desenho estão contidos os impulsos, os reflexos, as sensações e os gestos, também estão presentes os padrões de ordenação, as experiências passadas, os esforços de marcar pela construção aquilo que interessa observar” (Perrone, 1998).
O antagonismo entre artefato e elementos da natureza também é registrado gráfica e simbolicamente em duas grandes artes grafite localizadas na região e facilmente visualizadas por quem transita na Avenida.
Logo no início da Avenida, próximo à Praça Oswaldo Cruz, pode se avistar o painel de Eduardo Kobra que homenageia Oscar Niemeyer e, por consequência, o ideário da urbanidade e modernismo.
No extremo oposto da Avenida, na confluência com a Rua da Consolação, se observa o grafite Lembranças de uma doce Primavera, do artista Nove, que exalta as formas orgânicas e os elementos da natureza.
Produzidas em épocas diferentes, as duas obras têm em comum o colorido que se contrasta com a paisagem acinzentada.
Embora sejam de grandes dimensões, nenhuma delas foi citada pelos participantes da pesquisa. O que no remete novamente a questão do “olhar”, que pode ser provocado por uma experiência cartográfica,
Para Sergio Cardoso, a percepção dentro de uma dimensão simbólica só é possível com o olhar do viajante, o “olhar pensa, que testemunha a visão como interrogação” (Cardoso, 1968, p, 349)
Cartografia das ambiências, minha experiência
Em busca de alteridade radical (Jacques, 2012), me lancei a experiência de cartografar as ambiências da Avenida Paulista.
Além de ser uma das vias com maior urbanização verticalizada na cidade de São Paulo, a Paulista uma avenida icônica, eixo cultural e palco de manifestações populares das mais diversificadas.
- PERÍODO: o percurso foi em dia de semana (terça-feira) no horário de almoco, quando há intenso fluxo de pessoas nas calçadas.
- TRECHO DO TRAJETO: início na confluência da Avenida Paulista com a Rua da Consololação e final no Masp e Parque Trianon.
- OBJETO CARTOGRAFADO: ambiências e percepções humanas em relação elementos naturais nela contidos.
- ETAPASo: caminhar, observar com o “olhar”, registrar fotos, transformar percepções em narrativas.
Sobre o processo de cartografar
Para além de representar graficamente os territórios e paisagens, cartografar é o processo de registro de experiências e, como tal, fruto de subjetividade do cartógrafo que mergulha nas intensidades do presente e consegue “dar língua para afetos que pedem passagem”, como afirma Suely Rolnik (Rolnik, 2007).
É impossível isolar o objeto cartografado das articulações históricas e conexões com o mundo (Barros; Katrupp, 2009). E, por este motivo, cartografar é uma ferramenta para apreender a cidade e superar o que não se vê no dia a dia, desestabilizando assim as “partilhas hegemônicas e homogêneas do sensível” (Jacques, 2012, p. 112).
O processo cartográfico pode ser uma experiência errática e seguir uma perspectiva de “ecologia sensível da cidade”, onde o ordenamento urbano não se limita somente às formas e espaços edificados, mas também “aos ambientes sensíveis e aos envelopes climáticos” (Thibaud, 2012). O resultado não é definitivo e imutável pois a cidade passa por mutações constantes.
Ambiência 1 : Confinados ao ar livre

A caminhada pelo trajeto entre as esquinas das Ruas Consolação e Frei Caneca é marcada pela sensação de caos e pelo esforço de esquivar-se de pessoas que caminham apressadas no pouco espaço livre na calçada.
Esse caminhar em meio “a manada” impede a apreensão de qualquer detalhe na paisagem. O olhar é atraído sempre para frente e, mesmo estando ao ar livre, sente-se falta do ar, e de vento,
O ruído de pessoas e buzinas impede a percepção de sons sutis como o de pássaros que, provavelmente, visitam as copas das poucas árvores nesse trecho da Avenida.
Ambiência 2: Natureza “rebelde”

Na Praça do Ciclista, no canteiro central, se presencia sinais de liberdade (ou rebeldia) diante da rigidez e solidez da arquitetura predominante na Avenida. O movimento evocado pela estátua do herói venezuelano Francisco de Miranda, se ajusta à liberdade e rebeldia natural da vegetação da Praça.
Mas a praça tem regras e ela está descrita na forma de convite em uma placa rústica de madeira: “Colha só Folhas e Frutos. Preserve as Plantas”.
A sensação de frescor que as árvores da Praça proporcionam é despercebida pelos pedestres parados no ponto de ônibus, cuja atenção está voltada ao trânsito e à tela de seus smartphones.
Ambiência 3: Canto dos pássaros

Do parapeito na abertura do túnel (que liga a Avenida Paulista à Avenida Rebouças) os elementos naturais visualizados são apenas os estampados em arte grafite. Me pergunto: há natureza no fim do túnel?
Neles se vê o desenho de uma menina de grandes olhos brancos observando flores coloridas. Também há outros seres que formam plumas de um grande pássaro amarelo. À frente do mural, uma indagação filosófica escrita na calçada: Quem somos?
Enquanto fotografo essas representações, me surpreendo com o som de pássaros. O som não vem do túnel, mas de árvores do projeto de paisagismo do Edifício na esquina da avenida Paulista com a Rua da Consolação.
Surpreendente ouvir, em meio a tanto concreto e vidro, o som de vida natural na Avenida.
Ambiência 4: Natureza controlada
Indo em direção Museu de Arte de São Paulo (Masp) é possível observar de muitas formas o domínio do homem sobre a natureza.
A sensação é de clausura. Arvores, palmeiras e arbustos estão isolados por grades em pequenos espaços ajardinados à frente dos edifícios.

Em jardineiras de concreto, arbustos topeados viram objetos decorativos ou disciplinador. A geometrização e padronização desses elementos vivos os transformam em objetos estranhos à paisagem.

Dois arbustos transformam-se em diminutos pontos verdes na gigantesca fachada espelhada de outro edifício.

Uma escultórica palmeira triangular (Dypsis decaryi) à frente de um edifício tem sua forma mimetizada em frisos verdes na fachada de concreto, parecendo um só elemento.
Ambiência 5: Vestígio do passado
Avistar o Palacete Franco de Mello,emoldurado pelas árvores do Parque Mario Covas, nos remete a uma sensação de uma avenida Paulista mais lenta e serena e a música da Vânia Bastos vem instantaneamente à mente:

“Na Paulista os faróis já vão abrir e um milhão de estrelas prontas para invadir os jardins onde a gente aqueceu numa paixão manhãs frias de abril… Se a avenida exilou seus casarões, quem reconstruiria nossas ilusões? Me lembrei de contar para você nessa canção que o amor conseguiu….”
Ambiência 6: Interrupção

A muralha de edifícios em perspectiva permite que o céu seja mais facilmente percebido pelo caminhante. Mas essa linearidade é interrompida por dois elementos antagônicos: de um lado, o imenso bloco de concreto e vidro do Museu de Arte de São Paulo (Masp); do outro, o imenso maciço de árvores do Parque Trianon, que mais se assemelha a uma pequena floresta.
Nesse ponto do trajeto o olhar exige pausa, como sugere Bondía (2002, p.22): “… pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar, e escutar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar aos outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço”.
Nesses espaços – o vão do Masp e o Parque Trianon – a experiência é o médium – como o ar, som, luz, cheiro e os elementos presentes. “O médium é aquilo a partir do qual percebemos, é o que torna a percepção possível, aquilo que faz perceber”(Thibaud, 2012).
Ambiência 7: Vão e vazios
O vão do Masp é despido de natureza e, assim foi intencionalmente projetada, como explica Lina Bo Bardi em carta ao paisagista Roberto Burle Marx, no ano de 1967:
“[…] o Belvedere do Trianon será uma praça sem jardim, para o encontro do povo, exposições ao ar livre e concertos, nada mais” (Carrillo, 2009).
Na base das colunas há espelhos d’água que pouco refrescam. A sensação de calor é amenizada apenas na sombra do Museu, projetada no vão no edifício.


Na área posterior ao vão se reunem pequenos grupos de jovens que absorvem o aroma “verde” dos cigarros ali fumados. Ao aproximar da extremidade do vão, se vê um volume de copas de árvores e o vale da Avenida 9 de julho. Nesse ponto, o som de carros na Avenida parece distante.
Ao voltar as costas para a paisagem natural do vale e mirar o edifício do Masp se visualiza o Parque Trianon.


Ambiência 8: Cheios e calma

A densa vegetação do Parque é cercada por grades. Para adentrá-lo é preciso passar pelo portão o que confere uma sensação de ser transportado para outro tempo e lugar.
Caminhar pelas alamedas curvas de pedras portuguesas proporciona uma sensação bem diferente da experienciada na Avenida. Embora a dimensão humana seja diminuta em relação às árvores de mais de 15 metros, não se tem a sensação de confinamento.
Aroma de folha fresca instiga curiosidade e a umidade no ar, sensação de frescor.
Sons delicados: das folhas secas se deslocando nas pedras portuguesas, pássaros piando, vento tocando as folhas das árvores. O som dos carros na Avenida parece distante.
Alguns feixes de luz solar penetram as folhas das árvores. O céu que se vê ao olhar para cima são as próprias copas das árvores.

Há pessoas transitando no parque e sentadas nos bancos. É uma presença silenciosa: dormindo, namorando, lendo ou interagindo com os seus smartphones. A sensação é de tranquilidade.
A baixa luminosidade proporciona sensação de calma e recolhimento. O ritmo de vida no parque é lento e calmo.
Vazios e Cheios. Embora diversas, as ambiências do vão do Masp e do Parque Trianon provocam um distanciamento do agito da avenida, da cidade e do tempo urbano.
São espaços para se estar consigo mesmo ou com outros, mas percebendo a si mesmo.
As ambiências nos mostram que a dinâmica dos espaços urbanos podem evocar sensações e percepções distintas, do “efeito manada”, da aceleração do caminhar cotidiano, ou até sensação de bem estar.
REFERÊNCIAS:
Barros, L. P.; Kastrupp, V. Cartografar é acompanhar processos. In: Passos, E.; Kastrupp, V.; Escóssia,L.(Orgs.). Pistas do método da cartografia: pesquisa-intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2009. .
Bondía, J. l. A experiência e o saber da experiência. Revista Brasileira de Educação, n. 19, 2002
Cardoso, S. O Olhar viajante (do Etnólogo). In: NOVAES. Adauto. O Olhar. São Paulo: Cia. das Letras, 1988.
Carrilho, M. J. O Museu de Arte de São Paulo. Disponível em: http://au17.pini.com.br/arquitetura-urbanismo/129/o-museu-de-arte-de-sao-paulo-23246-1.aspx
Jacques, P. B. Experiência errática e narrativas urbanas. In: Rheingantz, P. A.; Pedro, R (Orgs.). Qualidade do lugar e cultura contemporânea: controvérsias e ressonâncias em ambientes urbanos. Rio de Janeiro: UFRJ/FAU/PROARQ, 2012.
Perrone, R.l A C. Olhar/Ver/Desenhar. In: Sinopses São Paulo ed. 29 p. 28-31.Jun, 1998
Thibaud, Jean-Paul. O devir ambiente do mundo urbano. In: ReDObRa (UFBA), v.9, 2012
Rolnik, Sueli. Cartografia ou de como pensar com o corpo vibrátil. Disponível em https://www.pucsp.br/nucleodesubjetividade/Textos/SUELY/pensarvibratil.pdf


